qui, 19 de maio

Falar de política no trabalho é arriscado

VALOR ECONÔMICO – Foi-se o tempo em que o assunto mais corriqueiro nos corredores das empresas era a novela das oito. Se há hoje menos chances de se ouvir os nomes dos personagens principais da dramaturgia no cafezinho da firma, o mesmo não pode ser dito dos protagonistas das reviravoltas políticas assistidas pelo Brasil nos últimos meses. Junto com nomes como Sérgio Moro, Eduardo Cunha e Dilma Rousseff, no entanto, surge também o risco de discussões acaloradas com reações adversas e até intolerantes.

Na opinião de especialistas em gestão de pessoas e liderança, o momento de polarização que culminou no impeachment de Dilma Rousseff e no governo interino de Michel Temer exige mais cuidados dos funcionários na hora de falar de política com colegas e superiores. Isso pode criar situações de conflito que gestores e departamentos de RH não devem ignorar. Apesar do clima de tensão, no entanto, há uma oportunidade para as empresas usarem esse cenário para promover um ambiente construtivo de troca de ideias.

A coach executiva Ana Pliopas, sócia da Hudson Institute of Coaching, acha que a situação atual apresenta uma oportunidade para gestores e empresas. “O líder pode se propor a criar um ambiente que possibilite uma verdadeira troca de ideias, colocando limites”, diz. Na sua opinião, há conflitos que são produtivos, e a política pode servir de exemplo para outros assuntos em que há discordância.

A má notícia, ela adiciona, é que criar esse ambiente não é fácil. “O conflito é produtivo quando o foco é na ideia, mas pode ser pernicioso quando o foco é na pessoa”, diz. O brasileiro está acostumado a falar de política como fala de futebol, o que dificulta orquestrar esse espaço para a troca de ideias.

A outra opção seria o gestor atuar como “água na fervura” e evitar que discussões desse tipo aconteçam dentro da empresa. Para Ana, o resultado no curto prazo pode ser positivo, mas com o tempo há o risco de pessoas que pensam diferente não se sentirem parte do grupo, e de a empresa criar um ambiente rígido. O que ela mais vê nas companhias, no entanto, é uma atitude de negação. “As pessoas se digladiam e o gestor vira as costas para o problema.”

Na opinião de Leni Hidalgo, professora de educação executiva do Insper, as empresas também são um espaço para exercitar a democracia, permitir o debate e garantir o respeito. “Cabe ao líder a aos departamentos de RH saberem quando esse espaço está sendo invadido”, diz. Para ela, a questão não é sobre posicionamento político ou isenção. “É um problema de aceitação de diversidade, que é mais complexo”, diz. Na sua opinião, a função dos líderes e dos RHs é garantir um equilíbrio da neutralidade dentro da organização. “Você precisa ter a sua posição e a capacidade de garantir que os outros tenham a deles”, diz.

A consultora e diretora de certificação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Andrea Huggard-Caine, enxerga um clima de polarização na sociedade brasileira e, por consequência, nas empresas que ela reconhece no país de origem, a Argentina, local que visita todos os anos. “Lá as amizades se quebraram por causa da política. Estou vendo isso acontecer aqui, mas com menos intensidade”, diz. Ela acredita, no entanto, que o brasileiro é mais tolerante com maneiras diferentes de pensar e que esse clima é transitório.

Em situações em que os debates se tornam muito acalorados, ela recomenda evitar entrar em discussões que não estejam relacionadas ao trabalho sejam elas sobre política, religião, futebol ou outros assuntos que acabam descambando para o emocional. “Você não vai ser julgado pelo seu pensamento, mas pelo seu comportamento. Há o risco de ser visto como alguém com pouca inteligência emocional, incapaz de se conter.” Independentemente de posição, por exemplo, perder o controle em uma discussão com o chefe pode dar ao superior a impressão de que o funcionário se descontrolará também com clientes que pensem diferente.

Segundo o diretor de consultoria da Career Center, Fernando Dias, algumas empresas possuem, inclusive, códigos de conduta com recomendações sobre a postura junto a clientes com posições muito opostas em assuntos que podem gerar desavenças. Os consultores reforçam ainda que os cuidados nas redes sociais devem ser redobrados nesses momentos.

Diferentemente do que acontece no Facebook, a convivência com colegas de trabalho não pode ser interrompida após discordâncias pessoais. “Se você entra em choque muito forte com pessoas da empresa nas redes sociais, essa divergência vai aparecer no dia a dia. Brigar com alguém e, no dia seguinte, ter que fazer um projeto junto pode ser complicado, e se extrapolar, a empresa vai ter que tomar uma ação”, afirma Dias.

Por Letícia Arcoverde, Valor Econômico – 19/05/2016